A falácia do valor de mercado em épocas de volatilidade das taxas de juros

Na semana passada, atendi um cliente que estava convencido de que seu apartamento deveria ser vendido pelo mesmo valor que o vizinho de andar alcançou há exatos dois anos. Ele me mostrou uma planilha detalhada, focada apenas na metragem quadrada e no histórico de valorização da região. O problema é que, entre a venda do vizinho e o momento atual, a taxa Selic subiu drasticamente, o que encareceu o crédito imobiliário e mudou completamente o perfil de quem consegue — ou quer — financiar uma unidade como aquela.

O vendedor olhava para o imóvel como um ativo estático, enquanto o mercado, na ponta do financiamento, já operava em uma realidade de juros compostos muito mais agressivos. Essa discrepância entre o que o proprietário imagina que seu patrimônio vale e o que o comprador consegue pagar é o que chamamos de falácia do valor de mercado em tempos de volatilidade.

Sobrado a venda asa sul preço

A ilusão da valorização histórica

É comum que investidores e proprietários utilizem o “espelho” do passado para precificar o presente. Se o imóvel valorizou 15% ao ano durante um ciclo de crédito barato, a expectativa é que essa curva seja infinita. Contudo, o custo do dinheiro é o maior termômetro do setor. Quando o financiamento imobiliário fica mais caro, a parcela mensal explode. Um imóvel de 600 mil reais, que cabia no bolso de uma família com uma taxa de juros subsidiada, torna-se inacessível quando o custo do crédito sobe três ou quatro pontos percentuais.

Quem ignora essa matemática acaba mantendo o imóvel parado por meses, ou até anos, esperando uma proposta que nunca virá. Enquanto isso, o custo de oportunidade — o dinheiro parado que poderia estar rendendo em renda fixa sem o risco de vacância ou manutenção — vai corroendo o patrimônio real.

O papel da liquidez versus preço de vitrine

Existe uma diferença cruel entre o preço que você deseja e o preço que o mercado está disposto a pagar. Durante picos de volatilidade nos juros, o comprador médio se torna extremamente seletivo. Ele não está mais comprando apenas o imóvel; ele está comprando a parcela. Se o valor total do imóvel não baixar para compensar o aumento dos juros, ele simplesmente desiste da compra ou migra para uma unidade menor, em um bairro vizinho, onde a conta fecha.

Para o corretor, o desafio é alinhar essa expectativa. Muitas vezes, a solução não é baixar o preço de forma desesperada, mas sim entender o público-alvo daquele momento. Se os juros estão altos, o comprador que precisa de financiamento bancário está retraído. Talvez o foco deva ser o investidor que tem capital próprio e busca uma oportunidade de negociação à vista, ou o comprador que enxerga no imóvel uma proteção contra a inflação a longo prazo.

Ajustando o olhar para a realidade

O segredo de uma transação bem-sucedida em períodos de instabilidade é a flexibilidade. Se você é um vendedor, observe o tempo de prateleira dos imóveis similares ao seu. Se eles estão ficando parados por mais de seis meses, o preço de vitrine está desconectado da realidade dos juros atuais. Não adianta culpar o mercado ou a falta de demanda; o mercado está operando com as regras que o Banco Central impôs.

A melhor estratégia envolve uma análise técnica da capacidade de pagamento dos potenciais compradores. Quando os juros sobem, a liquidez diminui. Quem aceita essa regra primeiro, sai na frente, vende o ativo e consegue migrar para outra oportunidade enquanto os preços ainda não foram totalmente ajustados pelo desaquecimento. O mercado imobiliário não é um jogo de sorte, mas um jogo de percepção ajustada aos custos reais do dinheiro. Quem insiste em precificar o presente com base no otimismo do passado acaba perdendo o timing de saída. A adaptação, por mais dolorosa que seja para o ego do proprietário, é a única forma de transformar tijolo em liquidez real quando o cenário macroeconômico decide mudar as regras do jogo.